O que eu faria diferente na minha trajetória como psicoterapeuta...
- Jéssica Costa de Macedo Soares
- 31 de mai. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 2 de jun. de 2025

Seria mais paciente e amistosa com meus colegas de sala na graduação.
Já nem me lembro mais quais eram os motivos das brigas e picuinhas, lembro pouco da parte ruim e sinto muita saudade das risadas e do que fomos capazes de construir juntos. Os amigos que fiz durante a graduação foram meu maior suporte no início da carreira e isso é muito precioso!
Investiria ainda mais em atividades extracurriculares.
Vivia indo a congressos e eventos para além dos que eram ofertados em minha faculdade, mas sabendo o que sei hoje teria feito ainda mais. Esses eventos me ampliaram a visão de mundo, me deram mais dimensão das possibilidades profissionais, me deram a oportunidade de conhecer pessoas e deixá-las me conhecer. E todos os eventos contam, sejam eles acadêmicos, culturais ou sociais.
Buscaria mais conselhos com profissionais mais experientes, especialmente quando trabalhei no terceiro setor.
Essa história de que temos que dar conta sozinhos é balela! Ninguém vai muito longe sem companhia, suporte e orientação. A caminhada certamente teria sido mais leve se eu não tivesse tentado dar conta de tudo sozinha.
Iniciaria os atendimentos psicoterápicos sublocando sala por hora.
Me agarrava tanto ao sonho de ter uma sala de atendimento só minha que acabei desperdiçando muita grana e energia com algo que poderia ser mais simples. Para quem está começando, a sublocação de sala é mais segura e mais barata.
Realizaria um curso de formação na abordagem teórica que escolhi, antes de cursar uma especialização.
Ao terminar a graduação parecia muito importante realizar uma pós para "melhorar o currículo", mas a verdade é que a especialização foi um dos piores investimentos que fiz em termos de conhecimento. Aprendi, fiz contatos e me desenvolvi muito mais realizando os cursos de formação na abordagem psicológica que escolhi. Naquele momento eu não precisava de mais conteúdos teóricos, mas sim de vivências que contribuíssem com a minha prática profissional.
Faria tudo com mais calma e me atentando mais a cada passo dado.
A ansiedade nos primeiros passos era tanta que nem percebi que acabei tropeçando muito mais justamente por estar com pressa. A clínica psicológica é construída de forma artesanal, é um processo lento e que exige muito silêncio, atenção, leitura, presença, disponibilidade e suporte.
Procuraria um grupo onde pudesse partilhar angústias e me sentir acompanhada.
O início da caminhada foi muito solitária, mas tive a sorte de encontrar profissionais mais experientes que me acolheram e me orientaram. Sinto que os espaços onde mais cresci pessoal e profissionalmente foram os grupos. Participei de grupos de estudos, de crescimento, de supervisão, de desenvolvimento, enfim... Estes grupos me fortaleceram, me orientaram e me fizeram sentir acompanhada. A gente se sente mais forte e capaz quando não caminhamos sós.
Estudaria mais sobre administração e finanças.
Quem se enreda pelos caminhos de profissional liberal logo descobre que a gente precisa saber o mínimo sobre administração, finanças e contabilidade. Não ter sequer o mínimo de orientação nessas áreas é correr o risco de perder muita grana e se desiludir com o trabalho.
Investiria num bom contador para regularizar meu negócio.
Tá aí uma economia que me custou muito, muito caro! Com a grana curta acabei contratando contadores que cobravam pouco e que não eram especialistas na minha área de atuação, o resultado disso foi muito stress e uma quantidade absurda de dinheiro pagando uma porcentagem de impostos muito maior do que realmente precisava. Pagar um bom contador não é gasto minha gente, é investimento!
Teria sido uma profissional autônoma antes de me tornar uma Micro Empresária.
Uma das ciladas em que acabei caindo por más orientações contábeis foi iniciar minha clínica abrindo um CNPJ, sem saber que naquele momento isso me daria muito mais trabalho e gastos do que realmente era necessário. Teria sido muito mais barato e tranquilo se eu tivesse apenas dado os primeiros passos como profissional autônoma.
Faria acordos mais claros e firmes com as pessoas com quem trabalhei.
"O obvio precisa ser dito" tem sido meu jargão nos últimos anos, porque nem tudo que parece claro para mim está assim tão claro para o outro. Um contrato bem estabelecido, com acordos e limites claros é essencial para o sucesso dos negócios e dos relacionamentos. Não saber disso me rendeu relações desgastadas, muita frustração e algumas amizades perdidas.
Teria tido mais paciência e mais conversas difíceis com as pessoas com quem fiz sociedade.
Conversas difíceis são exaustivas e complicadas, mas são necessárias para o bom andamento de qualquer relacionamento e de qualquer negócio.
Investiria menos em decoração e mais na minha saúde.
A presença da psicoterapeuta é mais importante que o lugar onde a psicoterapia acontece, por mais que a preparação do ambiente também seja uma forma de cuidado. As vezes o excesso de zelo é só a gente procrastinando por medo e/ou insegurança. Investir em minha saúde física e emocional certamente teria contribuído muito mais com a minha clinica do que a infinidade de bibelôs que comprei.
Faria um plano de negócios com limites, projetos e metas bem estabelecidas.
Para quem não sabe para onde está indo qualquer ônibus serve, não é?! Melhor então é definir o destino antes de sair comprando qualquer passagem.
Confiaria mais em mim e escolheria melhor os meus mestres.
Grandes mestres são aqueles que estão ao seu lado e não acima de você, que te ajudam a compreender o mundo desenvolvendo sua autonomia, senso crítico e te permitindo exercer o direito de discordar (até mesmo deles).
Teria sido menos "empreendedora" e mais cautelosa na escolha dos meus investimentos.
Demorei para entender que meu tempo, dinheiro e energia são recursos escassos e que precisavam ser muito bem administrados. Acreditei na falácia de que se eu tivesse um sonho, força de vontade e trabalhasse bastante eu conseguiria fazer qualquer coisa (a vida real tá longe de ser um filme da Disney). Por fim descobri que só quem já tem grana pode fazer qualquer coisa e que pobre não é empreendedor, pobre é trabalhador precarizado, independente de ser prestador de serviço ou profissional liberal.
Seria mais prática e menos apegada na hora de fazer os planejamentos.
Aceitar que as coisas nem sempre saem como a gente quer e saber a hora de parar e/ou de dar alguns passos para trás é uma baita demonstração de maturidade e sabedoria. Não é só para frente que se anda, crescimento também consiste em saber a hora de parar.
Teria sido mais humilde e observado com mais cautela minha pequenez frente aos eventos da vida.
Não controlo quase nada e por isso deveria ter sido mais cuidadosa e precavida, especialmente com meu dinheiro. Começar um negócio com crédito e ser obrigada a fechá-lo um ano depois, devido à pandemia de COVID-19, me rendeu uma década de dívidas. A gente pode confiar no sonho, mas é melhor pagá-lo a vista e com alguma grana para o capital de giro.
Daria menos importância ao que as pessoas pensam e focaria mais nos meus desejos, potências e na minha intuição.
Desconfie de quem te faz sentir menor, de quem te faz duvidar da sua capacidade e/ou limita seus passos. E sempre que tiver que escolher entre a sua intuição ou algum "mestre", escolha sua intuição, o corpo as vezes sabe de coisas que o intelecto demora para compreender.
Prestaria mais atenção no tripé "agenda, contrato e precificação" desde o início.
A gestão do meu tempo, limites claros e cobrar de forma justa pelo trabalho que entrego tornaram minha vida profissional e pessoal absurdamente mais simples, mas a jornada para compreender a importância desse tripé e para desenvolver ferramentas para sustentá-lo levou anos.
Agradeço as versões de mim que passaram por tudo isso para que hoje eu saiba o que sei e as honro dividindo essas experiências com quem está iniciando, ofertando a ajuda que também recebi em minha própria jornada.
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Jéssica Costa de Macedo Soares
Psicóloga, poeta, colhedora de histórias e idealizadora da Revoada.
CRP: 06/135727
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